Museu de Arte Contemporânea de Niterói completa 20 anos

O Museu de Arte Contemporânea de Niterói – MAC, projetado por Oscar Niemeyer, é o principal símbolo da cidade.

Eleito uma das maravilhas arquitetônicas do mundo e um dos cartões-postais mais importantes de Niterói, o Museu de Arte Contemporânea completa 20 anos no mês de setembro. Para comemorar a data, o MAC inaugurou no último sábado (3), três exposições. Seguindo o programa ‘MAC + 20’, as coleções possuem como objetivo ressaltar a relevância histórica da Coleção MAC Sattamini – o primeiro conjunto de obras exposto no museu –, aproveitar a conexão do MAC com a paisagem e enaltecer novas perspectivas curatoriais através de colaborações nacionais e internacionais.

A mostra “Ephemera: Diálogos Entre-Vistas” está aberta desde junho e recebe um novo eixo de obras a partir deste sábado para a celebração dos 20 anos do museu. A coleção busca o diálogo permanente com as demais mostras em cartaz e aborda a Coleção MAC Sattamini. São 60 anos de arte representados na exposição, que reúne obras de nomes importantes da arte contemporânea brasileira a partir de 1950. Segundo Guilherme Vergara, curador do museu, serão três temas diferentes abordados na exposição.

“Fizemos uma síntese de três conceitos importantes. Um dos temas é a concepção de ilusões e ideologias, que possuem relação com narcisismo e a crise política. Outro é a temática das mulheres em representatividade e os diferentes meios e suportes da expressão feminina. O último eixo é a questão das torturas, ditaduras e relações políticas abusivas. Todas essas obras da ‘Ephemeras’ lidam com o quanto a coleção está ligada com as questões que estão presentes no Brasil de hoje”, revela.

‘Ephemera: Diálogos Entre-Vistas’ reúne obras de nomes importantes da arte contemporânea brasileira a partir de 1950

A artista Katie Van Schepenberg explica um pouco do seu projeto e confessa que acredita que o MAC é um privilégio para Niterói, devido à sua beleza e ao carinho com os artistas.

“A obra que o Guilherme expôs é um projeto de 98 e foi feito sobre um bordado que eu pintei. O bordado é manchado pela passagem do tempo e finalmente essas cores que apareceram ficam empregadas ao próprio material”, conta.

A relação do MAC com o cenário natural fica evidenciada nas obras da mostra “Baía de Guanabara: Águas e Vidas Escondidas”. Em agosto foi aberta a parte I desta exposição e, neste sábado, para os 20 anos do MAC, será aberta a parte II desta mesma mostra, com obras de Mercedes Lachmann, Lívia Moura, Rodrigo Braga, Ronald Duarte, Regina de Paula, Paulo Paes e Adriana Varejão. Segundo Guilherme Vergara, a exposição descobre os segredos imersos na paisagem e aborda as diversas formas de vida presentes nesse ecossistema.

“É uma exposição que lida com a Baía de Guanabara, mas que lida também com outros universos, não só o humano, pois são diversas as vidas que estão escondidas na paisagem”, explica.

Rodrigo Braga é um dos artistas que fazem parte da exposição. Ele conta que escolheu a Ilha de Paquetá nas águas da Baía como local de trabalho e explica que sua obra, realizada em vídeo, teve como inspiração o lado social e ambiental.

“Moro no Rio há apenas cinco anos e Paquetá foi um lugar que sempre me encantou por ser um bairro do Rio com características bem singulares. Diferentemente de muitos cariocas que vivenciaram períodos ainda mais cativantes da ilha, especialmente quando as águas da Guanabara não eram tão imundas, eu sempre fui atraído pelos contrastes socioambientais que incluem uma beleza natural tão arrebatadora quanto judiada pelo homem”, relata.

Para reforçar o processo de colaborações internacionais, o MAC recebe a famosa videoinstalação “Ten Thousand Waves”, do inglês Isaac Julien. Na instalação, o artista dialoga com a arquitetura de Niemeyer, criando uma visualização fluída desde o interior do museu. A obra foi inspirada na tragédia da Baía de Morecambe, na Inglaterra, onde mais de 20 catadores de mariscos ilegalmente vindos da China morreram afogados. No filme, Julien resgata a memória da deusa chinesa Mazu, antiga protetora dos pescadores e mares. De acordo com Guilherme Vergara, a exposição promete arrebatar o espectador.

“O visitante parte das paisagens pitorescas desta exposição, no salão principal, e navega até o exterior do museu, sendo levado à paisagem da Baía de Guanabara. Assim, neste pequeno museu redondo, cabem as dez mil ondas de Isaac Julien e, com elas, o oceano de tantas incertezas do contemporâneo”, expõe.

De acordo com Rodrigo Braga, a exposição de 20 anos do MAC possui forte cunho político, com o pano de fundo ambiental e social. Para ele, o museu usufrui de um público heterogêneo e de uma localização que permite relação entre a paisagem e as obras, portanto, a expectativa para a exposição é que ela crie uma possibilidade para o público refletir.

“A posição estratégica que conecta o dentro e o fora através de sua varanda panorâmica nos faz refletir essa relação entre gente e paisagem, entre causa e efeito das ações humanas sobre a natureza. A minha expectativa é que seja uma mostra que proponha reflexões através de obras processuais e poderosas”, conclui.

Videoinstalação ‘Ten Thousand Waves’, do inglês Isaac Julien

O Museu de Arte Contemporânea fica no Mirante da Boa Viagem, s/nº, Boa Viagem. Visitações de terça a domingo, das 10h às 18h.