MAM exibe acervo raro de imagens do Rio na primeira metade do século XX

Registros do Rio de Janeiro dos anos 1920 a 1940 (Reprodução)

A cinemateca do Museu de Arte Moderna (MAM) exibe a partir desta semana materiais inéditos e reveladores do cotidiano carioca, gravados por um cinegrafista amador entre os anos 1920 e 1940. As imagens exibem marcas da deterioração do tempo, mas oferecem uma ideia de como era a vida no Rio de Janeiro, então capital federal, na primeira metade do século XX. Mostram as praias da Urca lotadas, com moças em trajes de banho e banhistas transitando de lancha pelas águas da baía de Guanabara. Mais adiante, o registro de uma viagem de trem rumo a uma Penha ainda quase rural, na Zona Norte, a fachada do Cine Oriente convida o público a assistir a dois sucessos da época, o drama “Como me queres”, de George Fitzmaurice, com Greta Garbo, e o musical “Ama-me esta noite”, de Rouben Mamoulian, ambos lançados em 1932.

A exibição faz parte da programação da I Jornada de Estudos em História do Cinema Brasileiro, em cartaz até sexta-feira no MAM e no Instituto de Arte e Comunicação Social da Universidade Federal Fluminense (UFF). Doadas ao recém-criado Laboratório Universitário de Preservação Audiovisual da UFF, o Lupa, e digitalizadas pela Cinemateca Brasileira a partir de um convênio com o MAM, elas ilustram uma mesa de debate sobre a importância dos filmes caseiros.

— Queremos que as pessoas entendam a importância desse tipo de registro feito pelos pais ou avós, e que geralmente vivem esquecidos em algum lugar da casa. Eles são essenciais na construção da memória e da identidade não apenas familiar e individual, mas também social e coletiva. Por isso, tais filmes, não importa o suporte, precisam ser exibidos e estudados — afirma Fabián Núñez, professor adjunto do Departamento de Cinema e Vídeo da UFF e pesquisador do Lupa. — A universidade pode e deve ser esse espaço e mediar essa relação, entre o que aparentemente há de mais íntimo e pessoal para passar a entendê-lo como algo também de importância pública e geral.

A sessão preparada especialmente para o debate durante a Jornada tem 15 minutos de duração, compilados de um conjunto de nove latas de filme em 9,5mm, feitas por um cineasta amador, creditado apenas como J.Nunes. Contém preciosidades como cenas de carnaval de rua em Santa Teresa, competição de “baratinhas” (antigos carros de corrida) na Tijuca (até então, as únicas imagens do esporte haviam sido feitas nas pistas da Gávea), praça de touros em Laranjeiras e festas populares na Penha. Há também registros de dois desfiles comemorativos do Dia da Independência — um deles com a presença do então presidente Washington Luís, que governou o país de 1926 a 1930.

— Os historiadores, em particular, vão adorar as imagens da parada de Sete de Setembro de 1929, pois mostram Washington Luís em movimento, passando em revista os soldados do Exército. Já na de 1935, às vésperas do Estado Novo, já percebemos aspectos de eugenia no desfile, com ênfase na beleza física de atletas do remo, cada um de um clube do Rio — observa o professor Rafael de Luna, coordenador do Lupa e um dos organizadores da Jornada. — Daí o valor de vídeos e filmes caseiros, que proporcionam visões complementares à oferecida pela produção oficial. Muitos documentaristas do exterior já estão apelando para esse tipo de arquivo.

 

Informações: Divulgação / Jornal O Globo