Rio de Janeiro à francesa: da arquitetura ao estilo de vida

A França contribuiu significativamente para a constituição da identidade brasileira. Da arquitetura aos costumes, há muito a ser observado nas trocas culturais entre a França e o Brasil.

Desde a colônia França Antártica de Villegaignon, fundada no Rio de Janeiro em 1555, que visava a construção de uma base naval e militar para reforçar o comércio com os nativos e atacar navios ibéricos, alguns livros de viagem revelam-nos certo pioneirismo da presença francesa no Brasil.

Após a invasão dos exércitos napoleônicos a Portugal, Dom João VI partiu para o Brasil Colônia juntamente com a sua Corte, vindo a instalar-se na cidade do Rio de Janeiro. Esse fato daria início ao distanciamento, mesmo que sem intenção, da colônia a sua metrópole lusitana, pois as próximas gerações não mais se subordinariam a Portugal com a mesma facilidade.

Na época de Luís XIV, o luxo da Corte, aliado ao prestígio da literatura e da filosofia, contribuiu para que a cultura da França se espalhasse pelo mundo ocidental.

Interiores do Teatro Municipal do Rio de Janeiro

 

A Missão Artística Francesa

No dia 26 de março de 1816, chegava ao Rio de Janeiro a chamada “Missão Artística Francesa”, composta por artistas plásticos, arquitetos, músicos, carpinteiros, serralheiros, e chefiada por Joachim Lebreton, que tinha como objetivo instalar o ensino das artes e ofícios no Brasil através da construção da Academia de Belas Artes. Nomes como o de Jean-Baptiste Debret, Grandjean de Montigny, Auguste Marie Taunay, Nicolas-Antoine Taunay, Segismund Neukom e Zephiryn Ferrez estavam presentes na missão. Os artistas pintavam, desenhavam, esculpiam e construíam à moda européia. Na arquitetura obedeciam ao estilo neoclássico.

Casa Cavé: estilo eclético na fachada e inspiração art-déco no interior

Este casarão, no bairro de Botafogo, é um exemplo de arquitetura renascentista francesa 

Em 12 de agosto de 1816, um decreto cria a Escola Real de Ciências, Artes e Ofícios. Para desenvolver o projeto do edifício da futura Academia das Belas-Artes, foi chamado o arquiteto da Missão, Auguste Henrique Victor Grandjean Montigny. Seu projeto foi apresentado a D. João VI, que imediatamente autorizou o inicio das obras.

Grandjean de Montigny ajudou a organizar o ensino da arquitetura e das artes e a implantar o estilo Neoclássico no Brasil. É autor de vários projetos, principalmente no Rio de Janeiro, como a atual Casa França-Brasil, o Solar Grandjean de Montigny, a Academia Imperial de Belas Artes, o Chafariz da Carioca, entre outros. Muitos desses projetos, como a Academia em 1937, foram demolidos.

Casa França-Brasil

Chafariz do Largo da Carioca

A atual Casa França-Brasil, foi o primeiro de seus projetos para a cidade, construída em 1820. Foi o projeto introdutório do estilo neoclássico, e se prestou muito bem já que era um prédio público e monumental, e monumentalidade é uma característica desse estilo. Embora a Corte não pudesse se dar a excessos para a construção, o edifício deveria representar a modernidade e ser símbolo de poder, sendo o neoclássico o estilo perfeito, com suas “ideologia da ilustração”, “classe” e “proporcionalidade” específicas e novas, levando o Brasil a ingressar oficialmente no estilo mundial.

Casa França-Brasil

Por outro lado, alguns mestres-de-obras e construtores, que utilizavam os métodos tradicionais de construção, chegaram a mover intensa campanha contra o refinamento de Montigny e seus novos princípios de aeração e higiene, que exigiam a modificação radical das plantas de arquitetura usadas na época. A Missão Francesa motivou reações extremas por parte dos artistas luso-brasileiros, que se viram fatalmente atingidos.

Jean-Baptiste Debret foi chamado de “a alma da missão francesa”. Pintou diversos retratos da família real, quadros históricos e gravuras, que são relatos dos costumes e vida no Brasil do século XIX. Além de pintor, Debret também foi desenhista, pintor cenográfico, decorador, professor de pintura e organizador da primeira exposição de arte no Brasil, em 1829. Junto com Nicolas-Antoine Taunay, foi o primeiro artista profissional a chegar ao Brasil desde o século XVII e a ocupação dos holandeses no nordeste.

O Jantar no Brasil. Jean Baptiste Debret. Viagem pitoresca e histórica ao Brasil.

Sua principal produção na sua temporada em território brasileiro (Debret permaneceu no Brasil até o ano de 1831) foi a obra intitulada “Viagem Pitoresca e Histórica ao Brasil”. Essas imagens revelam um país exótico ao olhar europeu, marcando as diferenças entre as civilizações.

Com a chegada da Missão Francesa em 1816, não foi apenas a arte neoclássica que atracou no Brasil, mas idéias de higiene e saneamento que iriam modificar o urbanismo das cidades, transformando o viver no Brasil Colônia. Independente da posição crítica diante da Missão, os artistas franceses que aqui estiveram, sob a liderança de LeBreton, deixaram grandes frutos em terras brasileiras.

 

Um pedaço de Paris no Brasil

A cidade-luz foi referência constante e direta para o desenvolvimento das artes plásticas, da arquitetura, da literatura, da gastronomia, da educação e também do setor industrial. Apesar da influência francesa ter chegado ao Brasil graças à Corte, foi realmente no final do século XIX e início do XX que essa presença se fez mais marcante.

Embora o modelo de urbanização não possa ser “exportável”, as idéias e o imaginário de uma Paris moderna foram importados por diversas civilizações, dentre elas a brasileira. A França foi uma referência unânime para todas as elites brasileiras.

Cinelândia: imponentes construções de influência francesa.

 

Rio de Janeiro: em busca da modernidade

No Brasil, a primeira cidade a recusar seu passado colonial, foi o Rio de Janeiro, sede da Corte e porta de entrada das novas ideias de progresso e modernidade.

A partir da década de 70 do século XIX, a elite carioca passou a contestar o padrão colonial e as questões urbanas. Em Paris, as bens sucedidas intervenções de Haussmann serviam de exemplo. Em 1874, foi realizada uma Comissão de Melhoramentos da cidade do Rio de Janeiro comandada por Pereira Passos. Embora o plano não ter dado certo, iniciaram os debates, incluindo a elite cultivada brasileira, sobre circulação, higiene e estética.

A elite carioca freqüentava livrarias, cafés, confeitarias e óperas, onde conversavam sobre cultura, literatura e moda. Reuniam-se para observar o movimento e também para serem vistos. Grande parte dessa elite tornou-se jornalista ou escritor, afirmando a identidade nacional desejada. Seus textos possuíam expressões estrangeiras, principalmente francesas. A fascinação pela França fazia a viagem a este país quase que uma obrigação e muitos concluíam seus estudos por lá.

A arquitetura francesa transformou não apenas a paisagem urbana como também os costumes dos cariocas. O modo chique e refinado do país europeu fez com que muitos moradores começassem a seguir as modas dos franceses, na indumentária nos cumprimentos, nas danças e passeios pelos bulevares. Com a transformação da arquitetura carioca, a sociedade começa a viver à francesa. A influência é muito forte no comportamento dos brasileiros, que começaram a adotar os costumes do país europeu e a defini-los como um jeito chique de se viver no Brasil.